
Quando Guga colocou a camiseta laranja e vermelha, raqueteira nas costas e pisou na quadra para enfrentar Franco Ferreiro, sabia que vencer a partida era improvável. Fizera seu dever de casa dois dias antes, ao dar de bandeja para a torcida o sabor daquela que talvez seja a última vitória no tênis profissional.
Mesmo assim, tentou ganhar. Entrou com garra, agressivo, quebrou o saque do adversário, mas perdeu o duro primeiro set por 7/5. Não conseguiu acertar nenhuma bola um pouco mais complicada na direita, lado frágil do quadril.
Na segunda parcial, o adversário Franco Ferreiro voltou forte e abriu 3/0, com duas quebras. O abatimento tomou conta da sala de imprensa. Pensei: “É, agora acho que foi”. Os outros jornalistas trabalhavam de cabeça baixa em seus notebooks, antecipando os leads no coro “Guga perdeu por 2 a 0 na sua despedida do Brasil”.
A vaca estava indo para o brejo. Mas um grupo de torcedores resolveu invocar a garra de Guga aos gritos e foi seguido por boa parte das 4 mil pessoas presentes no Costão do Santinho. O tenista, então, decidiu aproveitar a partida, dar show para o público.
Percebeu mais uma vez que seu carisma está intacto. Fez a ola com a torcida e comemorou com sorrisos cada ponto conquistado. O público respondia com mais vibração. Isso tocou o tenista naquilo que ele tem de mais surpreendente, o emocional.
Sentindo todas aquelas vibrações positivas que o Larri Passos tanto gosta de trabalhar, viu que podia ser mais uma vez o número um do mundo. Jogou Ferreiro de um lado para o outro, botou o adversário para correr em direção à rede – e não alcançar as deixadinhas -, desferiu golpes da esquerda fulminante. Parecia que a dor tinha se rendido à força de vontade. E Guga equilibrou a partida.
Quando todos se davam por satisfeitos, o momento definitivo. A bola veio boa na esquerda e Guga deve ter pensado rapidamente se devolvia na cruzada ou arriscava uma paralela. A decisão é rápida.
Quase de costas para a quadra, Guga acertou a empunhadura, pisou lá na frente, começou a girar o tronco e trouxe a raquete, acertando a bolinha um pouco abaixo do quadril. Terminou com os braços bem abertos, em pé, e uma versão prolongada daqueles seus gemidos tradicionais: “Uuuuuhhh-aaahhhhhnnnnnnnnnnnn!!!”. E assim ficou por uns três ou quatro segundos. O golpe, um petardo na paralela como nos velhos tempos, não deu chances a Ferreiro. A execução é perfeita.
Guardo esse lance com carinho na memória. Foi um grande jogo e, sem dúvida, o maior momento esportivo que presenciei nessa vida de quase 23 anos.
O adeus ficou mais digno. Era mesmo o tri de Roland Garros que estava em quadra. A torcida delirou, aplaudiu, gritou, e todo mundo agradeceu por estar ali. Ninguém ligou se o coadjuvante da festa venceu a partida. O show acabou naquela paralela de esquerda.
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Alemonada 1: Esse lance do Guga me lembrou uma jogada de outro gênio, essa aqui, que vi aos 13 anos. Aos 15 segundos do fim do sexto jogo da final da temporada 97/98 da NBA, Jordan fez os dois pontos que deram a vitória e o título ao Chicago Bulls. Foram os últimos pontos do astro no lendário Bulls dos anos 90. E lá está ele, arremessando, acertando e mantendo a posição do tiro: braço erguido, mão quebrada. Outro momento definitivo do esporte.
Alemonada 2: Ao fazer meu TCC sobre o Guga, duas coisas ficaram bem claras para mim. Ele não é extremamente talentoso, não foi o mais habilidoso, nem o mais rápido, ágil ou forte. Mas treinou arduamente para ser o melhor que podia. E foi. No entanto, sua melhor qualidade estava na cabeça, a capacidade de superar situações difíceis, dentro e fora da quadra. Nas palavras do treinador Paulo Cleto, Guga é o “gênio emocional”.
Alemonada 3: Em Florianópolis, Guga Kuerten é mais Guga e menos Kuerten. É menos tenista e mais o filho da dona Alice e do saudoso Aldo. E que assim seja daqui para a frente. Vai surfar, Guga!

